Morro do Borel: Memória, Samba e Resistência no Coração da Tijuca

Morro do Borel: Memória, Samba e Resistência no Coração da Tijuca

Publicado em 04/04/2026 | 15 leituras

O Morro do Borel é muito mais do que uma favela na Zona Norte do Rio de Janeiro. É um território de memórias profundas, um berço do samba e da luta organizada por moradia e direitos. Localizado no coração da Tijuca, o Borel completa mais de um século de existência em 2021, e sua história se confunde com a própria história das remoções forçadas, da formação das primeiras associações de moradores do país e da criação de uma das escolas de samba mais vitoriosas do carnaval carioca.

Origens: A Ocupação e o Nascimento de uma Comunidade
A história do Morro do Borel começa em 1921, em um contexto de profundas transformações urbanísticas no Rio de Janeiro . O governo municipal, inspirado por ideais de modernização e "embelezamento" da cidade, promoveu a demolição do Morro do Castelo e, posteriormente, do Morro de Santo Antônio, ambos no Centro da cidade . Milhares de pessoas, em sua maioria trabalhadores pobres que ali residiam, foram expulsas de suas casas e se viram obrigadas a buscar novos locais para morar .

Foi nesse contexto de crise habitacional que as encostas de um terreno antes pertencente à família francesa Puri Borel começaram a ser ocupadas . A família, que vivia da extração de madeira, havia abandonado o local por volta de 1920, deixando terras devolutas que rapidamente se tornaram uma alternativa de moradia para os desabrigados . O nome do morro, portanto, é uma herança direta desses antigos proprietários franceses .

Assim como outras favelas cariocas, o Borel surgiu como uma solução popular e autônoma para uma grave questão habitacional, num período em que o Estado não oferecia políticas públicas de moradia para a população de baixa renda .

O Berço da Unidos da Tijuca
Se o Borel nasceu da remoção, foi no samba que ele encontrou uma de suas mais fortes expressões de identidade e alegria. Em 1931, apenas dez anos após o início da ocupação, moradores do Borel e de comunidades vizinhas (como Casa Branca, Formiga e Ilha dos Velhacos) uniram-se para fundar o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos da Tijuca . A reunião de fundação ocorreu no terreiro da Família Vasconcelos, na subida da Rua São Miguel, 130, casa 20, que é até hoje o principal acesso ao morro .

A agremiação foi a quarta escola de samba a ser fundada no Rio de Janeiro, atrás apenas de Deixa Falar, Portela e Mangueira . Durante décadas, sua quadra funcionou no coração do Borel, consolidando o morro como um reduto de sambistas e foliões. A relação entre a comunidade e a escola é tão intrínseca que o próprio símbolo da Unidos da Tijuca – um pavão azul e amarelo – tem origem no Borel. Ele foi inspirado nos maços de cigarros da antiga Fábrica de Fumos e Rapé de Borel & Cia, que ficava no pé do morro e estampava a ave em seus produtos .

Após um longo jejum, a escola viveu seu período de maior glória a partir de 2010, conquistando títulos em 2010, 2012 e 2014, levando o nome do Borel e da Tijuca para o mundo .

Pioneirismo na Luta por Direitos: A União dos Trabalhadores Favelados
Para além do samba, o Borel tem um papel de destaque na história do associativismo e da luta por direitos das favelas cariocas. Em 1954, em um contexto de ameaças de remoção, foi fundada na quadra da Unidos da Tijuca a União dos Trabalhadores Favelados (UTF) .

A UTF foi uma organização pioneira, criada com o objetivo de mobilizar os moradores não apenas contra o despejo iminente, mas também por melhores condições de vida . Sob forte influência de militantes do Partido Comunista, a entidade buscava construir uma identidade do morador de favela atrelada ao trabalho, combatendo os estereótipos negativos da época .

Um de seus feitos mais notáveis foi a formulação de um projeto de lei, de autoria de Magarinos Torres, que já na década de 1950 condenava a política de remoção e defendia a regularização fundiária, a urbanização das áreas e o acesso ao crédito para que os moradores pudessem melhorar suas casas . A UTF foi um embrião fundamental do movimento associativo que, décadas mais tarde, ganharia força em todo o país. Posteriormente, a organização deu lugar à atual Associação de Moradores do Borel .

Violência, Tráfico e a Marca do Comando Vermelho
O Borel também carrega a triste fama de ser um dos símbolos da violência urbana no Rio de Janeiro. O morro é historicamente conhecido como o "berço do Comando Vermelho" . Foi ali que a facção criminosa, surgida nos porões da ditadura militar, fincou raízes e se fortaleceu .

Nas décadas de 1980 e 1990, o nome do morro tornou-se recorrente nas páginas policiais, frequentemente associado a traficantes como Isaías do Borel, um dos chefes mais procurados e que, mesmo preso, continuava dando ordens na comunidade . A violência atingiu níveis extremos. Em 2003, quatro jovens inocentes – um taxista, um mecânico, um pintor e um estudante – foram executados por policiais militares dentro da comunidade, num caso que chocou o país . Em 2006, um menino de apenas 9 anos, Lohan, morreu atingido por um tiro de fuzil durante um confronto .

O clima de medo era tanto que um hipermercado Carrefour nas proximidades chegou a fechar as portas . A letra de uma versão clandestina do "Rap do Borel", sucesso da dupla William e Duda, foi alterada para exaltar o crime e a facção, evidenciando a complexa relação da comunidade com a violência que a cercava .

A Chegada da UPP e os Desafios da "Pacificação"
Em 2010, o Borel entrou em uma nova fase de sua história. Em 28 de abril daquele ano, cerca de 150 homens do Bope e do 6º Batalhão da PM ocuparam o morro para a instalação da 8ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do estado, a primeira da Zona Norte . A ocupação foi considerada um marco, justamente por ocorrer no local simbólico de nascimento do Comando Vermelho .

A inauguração oficial ocorreu em 7 de junho de 2010, com a promessa de que a pacificação traria não apenas segurança, mas também projetos sociais e investimentos em infraestrutura . Na época, a então presidente da Associação de Moradores, Roberta Ferreira, expressou uma opinião cautelosa: "Para mim não é legal a chegada do policial sem projeto social, o que eu estou aguardando é isso" .

Com o passar dos anos, a relação com a UPP mostrou-se frágil e complexa. Relatos de extorsão por parte de policiais e a imposição ilegal de toques de recolher geraram atritos com a comunidade, culminando em movimentos como o Ocupa Borel . A sensação de segurança, que parecia ter melhorado nos primeiros anos, deu lugar a uma nova realidade de tensão.

O Borel Hoje: Entre a Resistência e o Retorno da Violência Armada
Nos últimos anos, o Morro do Borel voltou a ser palco de intensos conflitos armados, expondo o fracasso do modelo de pacificação em diversas comunidades. Reportagens de 2025 mostram um cenário de guerra recorrente na região.

Em outubro de 2025, câmeras de segurança flagraram um traficante armado com fuzil descendo as escadas do morro e abrindo fogo contra um suposto alvo em uma rua movimentada da Tijuca, causando pânico entre pedestres . Três pessoas foram baleadas, e uma delas, Márcio Luiz da Conceição Costa, de 20 anos, morreu. A vítima teria sido confundida com um traficante por ter tingido os cabelos .

Poucos dias depois, em 17 de outubro, a Polícia Civil realizou uma operação no Borel para combater a cobrança de taxas abusivas por parte de traficantes do Comando Vermelho . Investigações apontaram que integrantes da facção, incluindo a esposa de Isaías do Borel, usavam a estrutura da associação de moradores e de uma ONG para extorquir moradores e mototaxistas .

Ainda em outubro, uma guerra entre facções rivais colocou a Tijuca em pânico. Traficantes do Borel (Comando Vermelho) invadiram a vizinha Comunidade da Casa Branca, dominada pelo Terceiro Comando Puro, gerando um intenso tiroteio que se estendeu por horas . Moradores relataram cenas de terror, comparando o local à "Faixa de Gaza" e dizendo que, em mais de 25 anos, nunca haviam visto um confronto tão violento . Uma residência na Rua São Miguel, principal via de acesso ao Borel, foi atingida por uma bala perdida .

Conclusão: Um Século de Lutas e Identidade
Em 2021, o Morro do Borel celebrou seu centenário com uma festa que reuniu moradores, artistas e ativistas, reafirmando sua identidade e sua capacidade de resistir . A celebração incluiu um concurso (Miss Borel), apresentações de funk e samba, e homenagens a entidades e personalidades que fazem parte da história da comunidade .

A trajetória do Borel é um retrato em miniatura da história das favelas cariocas: nascido da exclusão e da remoção, construiu uma identidade cultural fortíssima através do samba, foi pioneiro na luta organizada por direitos, sofreu décadas com a violência do tráfico e do Estado, experimentou um breve respiro com a "pacificação" e, hoje, luta para não ser engolido novamente pelo fogo cruzado. Mais do que um morro na Tijuca, o Borel é um símbolo da resiliência de um povo que, há mais de cem anos, constrói sua história entre a memória e a resistência.

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